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Ruy Ohtake passa Paulo Mendes em número de bens tombados

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Por vanessa

09/04/14 02:10

Ruy Ohtake nem sempre foi um arquiteto de obras extravagantes e coloridas. Têm sua assinatura uma série de residências de concreto aparente austeras e racionais, alinhadas com propostas do modernismo arquitetônico que vigorou até meados dos anos 1970.

Pois é a produção dessa fase brutalista de Ohtake que recebe agora o mais alto grau de reconhecimento da cidade de São Paulo. Seis casas projetadas pelo arquiteto foram tombadas, sem alarde, em dezembro do ano passado e estão protegidas contra alterações.

Com a decisão, Ohtake ultrapassa Paulo Mendes da Rocha em número de imóveis tombados em São Paulo: sete contra seis* do prêmio Pritzker (contando a intervenção de Ruy no palacete Conde de Sarzedas e a de Paulo Mendes na Pinacoteca). São os arquitetos vivos com mais obras protegidas na cidade.

Tudo indica que Ohtake também é campeão entre os modernos* (veja ao final desse post porque ainda não consegui confirmar essa informação). Está à frente de Rino Levi (seis obras tombadas*) e de Vilanova Artigas (cinco obras*), precursor da chamada escola paulista, na qual “se formaram” Paulo Mendes da Rocha, o próprio Ruy e toda uma geração.

A proteção do patrimônio moderno edificado da cidade é uma das grandes preocupações do Conpresp hoje. Seminários e debates com especialistas de outros órgãos e de universidades estão sendo travados continuamente para estabelecer conceitos e diretrizes que formem uma política de preservação específica para esses imóveis.

Casas como a residência Rosa Okubo (abaixo) já estão com 60 anos de idade ou mais: são velhinhas modernas. Mas, diferente das construções ecléticas, cheias de ornamentos, os imóveis modernos não se parecem históricos ao olhar desavisado ou leigo, o que torna mais difícil legitimar sua preservação entre a população.

E que história conta então essa produção agora tombada de Ruy Ohtake? Entre outras, a história de uma arquitetura paulista preocupada com questões sociais, com as condições dos trabalhadores das obras, e que buscava soluções racionais para a produção em escala de habitações de qualidade.

As casas

A arquiteta e técnica da prefeitura Dalva Thomaz elaborou um estudo com 118 páginas e diversas fichas para embasar a decisão dos conselheiros do Conpresp (o órgão do patrimônio municipal). No texto, ela analisa minuciosamente cada imóvel, e mostra o diálogo deles com a obras de outros autores do período. Segue um (minúsculo) resumo do texto de cada um das casas. Por sua qualidade, o trabalho da técnica em breve será preparado para publicação em livro.

Casa Rosa Okubo, de 1964 (Vila Mariana)

Ganhou o prêmio da Bienal de Arquitetura de São Paulo de 1965

divulgação/acervo ROAUAcervo ROAU/Divulgação

O que primeiro chama a atenção na casa de dois pavimentos com estrutura de concreto armado são os vitrôs que ocupam quase toda a fachada junto com os cobogós (elementos vazados). Mas o que “surpreende” é a solução “refinada” da proximidade dos quartos de empregada com os restantes, “sem circulações exclusivas para cada uma dessas presenças na casa”.

Casa Chiyo Hama, de 1967 (Campo Belo)

Premiada pelo IAB

divulgação/acervo ROAUAcervo ROAU/Divulgação

A casa tira partido do terreno estreito e profundo (10 m x 50 m), adotando “soluções inicialmente desenvolvidas pelo arquiteto Vilanova Artigas” para o mesmo tipo de lote. As áreas livres nas laterais são incorporadas aos diversos ambientes da residência, “como espaço fruível interior à moradia”.

A configuração dos dormitórios, com duas portas cada, permite que sirvam como passagem entre a parte interna e a parte externa, reforçando o caráter permeável do projeto de Ohtake.

Casa/Atelier Tomie Ohtake, de 1968, com ampliação em 1997 (Campo Belo)

Premiada pelo IAB com o prêmio Carlos Millan em 1971

divulgação/acervo ROAULeonardo Finotti/Divulgação

A casa que Ruy Ohtake projetou para sua mãe foi ampliada duas vezes para abrigar o atelier da artista plástica. A iluminação dos ambientes ocorre principalmente por meio de aberturas laterais, fechadas com portas de correr que, da mesma forma que na casa Chiyo Hama, permitem a ligação entre interior e exterior.

Cozinhas e banheiros, aonde é preciso chegar a água encanada, estão agrupados como ilhas cercadas por amplos espaços abertos.

Casa Nadir Zacharias, de 1970 (Morumbi)

Recebeu o prêmio Carlos Barjas Millan na Exposição Anual do IAB/SP

divulgação/acervo ROAUAcervo ROAU/Divulgação

Essa casa “térrea elevada do solo” por seis pilares tem partido similar ao de obras como a Ville Savoye, de Le Corbusier, na qual fica clara a proposta de trazer a ilusão de que o edifício flutua.

Casa José Roberto Filipelli, 1971 (Morumbi)

Prêmio Carlos Barjas Millan, IAB-SP, 1971

divulgação/acervo ROAUAcervo ROAU/Divulgação

A cobertura única, sustentada por vigas apoiadas nos muros laterais, é uma das características mais marcantes dessa casa. Da mesma forma que na residência Chiyo Hama, a área aberta na lateral, com seu pergolado formado pelas mesmas vigas do teto, são responsáveis por grande parte da iluminação da casa.

Casa Paulo Bittencourt, 1972 (Jardim Luzitânia)

Premiada na Exposição Anual do IAB em 1974

Acervo ROAU/DivulgaçãoAcervo ROAU/Divulgação

A casa é “reconhecida por suas qualidades no meio arquitetônico”. Com o emprego do concreto e bloco aparentes, incorpora muitos elementos em experimentação na arquitetura das décadas de 1960 e 1970 em São Paulo. A continuidade dos ambientes internos para os externos, o pergolado lateral e a iluminação zenital (vinda de aberturas no teto) nos quartos são todos elementos que aparecem nessa residência, que buscava “colocar uma outra perspectiva para a vivência do ambiente da moradia urbana”.

O imóvel foi comprado recentemente, e o novo proprietário pretendia demoli-la para construir a moradia da família ali. Veja matéria publicada na revista sãopaulo sobre a controvérsia.

Fonte: http://seresurbanos.blogfolha.uol.com.br/2014/04/09/ruy-ohtake-passa-paulo-mendes-em-numero-de-bens-tombados/

 

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